Sintomas X Causas

Vamos a uma situação hipotética: por que uma pessoa tem febre? As causas podem ser muitas – insolação, gripe, resfriado, sinusite, outras infecções, inflamação, criança que perdeu cachorro, etc, etc, etc. Se se tratar de um caso grave, como infecção em algum órgão vital, o médico deve buscar a causa da infecção e tratá-la. Para isso terá que buscar onde no corpo está a infecção e o tratamento será correspondente ao órgão que está com problemas, ao tipo de agente invasor, etc, ou seja, será diferenciado, específico para cada caso.

Claro que se a febre estiver fora do controle, acima de 40º graus, a pessoa pode sofrer sérios problemas, ter sequelas  ou até mesmo morrer, aí sim se torna imprescindível tratar O SINTOMA febre, para depois ir atrás das CAUSAS da febre. Mas se a pessoa não está com febre acima do limite, ela apenas indica que há algo no corpo que está indo mal, que precisa de cuidados, e também é um jeito do corpo alterar seu próprio metabolismo para tentar estratégias de combate ao agente invasor ou ao desequilíbrio.

Com questões psíquicas temos uma situação parecida: quando alguém apresenta algum incômodo ou intenso sofrimento psíquico e busca ajuda profissional, pode se deparar com basicamente dois tipos de profissionais. Um é aquele que acredita que tratar apenas o sintoma é suficiente: se lhe perguntarem as causas do sintoma dará respostas genéricas e evasivas. Outro tipo de profissional é aquele que vai buscar as causas do que acontece.

Noutras palavras: tratar apenas de sintomas pode criar exércitos de dependentes de remédios psiquiátricos ou de “terapias” psicológicas que só funcionam enquanto continua-se a tomar pílulas ou a ir ao psicólogo. Por outro lado, buscar tratar as causas, embora algo mais demorado, trabalhoso, em alguns momentos até mesmo doloroso, pode vir a ter efeitos e resultados mais duradouros e de outra ordem. É esta é uma das razões pela qual me posiciono a favor da psicanálise.

E aqui cabe uma crítica à chamada psiquiatria organicista: não há médico de outra especialidade que não a psiquiatria que trabalhe apenas com sinais e sintomas para casos graves. Sempre que há um risco de consequências graves para a vida, médicos de outras especialidades recorrem a exames (de sangue, de excrementos, de imagens, etc) para identificar especificamente o mal que está havendo e, assim, tratar A CAUSA do que está acontecendo, não O SINTOMA. Claro que nenhum médico pede exame pra tratar de nariz escorrendo, pois as consequências disso para a vida da pessoa serão mínimas, mas se ele suspeitar de algo grave, ele certamente pedirá exames. O que estes psiquiatras organicistas defendem é que tudo é consequência de uma deficiência de neurotransmissores (na produção, emissão, captação ou receptação de neurotransmissores), mas não apresentam nenhum estudo concreto para predizer resultados (daí as infinitas tentativas com diversos medicamentos até “acertar o correto”), tampouco enfrentam questões do tipo: “Esses problemas nos neurotransmissores são causas ou consequências do que a pessoa vive em sua vida?”. Para eles, a questão é respondida com um “São causas.” e não há mais argumentos para embasar isto, o que do ponto de vista científico é seriamente problemático. Questões simples como esta ficam não respondidas.

O que a psicanálise propõe é que um sintoma é uma expressão de algo que tem significados e que tem relação com diversos aspectos da vida da pessoa. Não vou me demorar em conceitos herméticos como Outro, Ideal de Eu, Eu ideal, Supereu, Falo, RSI, etc, pois de nada acrescentaria ao que quero dizer. Aqui recomendo o texto “Afinal de contas: por que a psicanálise?

Nota: aqui falo especificamente dos psiquiatras organicistas e não dos psiquiatras em geral, pois dentro da psiquiatria há várias correntes de pensamento, diversidade que também existe dentro da psicologia. E sim, também existem psicólogos organicistas.