Sexualidade humana e Psicanálise

Tema que é fonte rica de questões e debates, preconceitos e libertações, que é parte da vida de qualquer pessoa, a sexualidade humana é bem mais complexa do que aparenta ser a sexualidade dos outros animais.

Os humanos são seres de linguagem e nossa realidade é em grande parte percebida através da linguagem que dispomos para percebê-la. E no quesito sexualidade, entra a linguagem, o outro, o corpo e mais um monte de fatores.

Os animais, via de regra, tem um objeto sexual pré-definido, com uma meta pré-definida, variando pouco tanto no processo de conquista de um parceiro sexual quanto no ato da cópula. Já os humanos… bom, não creio ser necessário falar da tamanha diversidade de práticas sexuais, jogos de conquista, estratégias amorosas, fetiches, gostos, outras áreas erógenas além dos genitais, etc, etc, etc.

E sendo um tema que envolve o encontro com o outro, é comum que se misture com várias outras questões além das sexuais propriamente ditas, como status socioeconômico, a cultura de cada um, jogos de poder, questões sociais, etc.

Ou seja, a sexualidade humana é tema complexo e que justamente por isso traz algumas pessoas ao consultório, buscando entender o que se passa consigo, o que se passa com o que os outros entendem daquilo que se busca transmitir, medos, angústias, traumas, etc.

Um psicanalista está aberto para receber estas demandas, ouvi-las e trabalhá-las junto com a pessoa. Fazer uma análise significa separar as diversas partes para poder elaborá-las, e isso quer dizer que um tema tão rico quanto a sexualidade e que pode ter vários fatores atuando ao mesmo tempo em uma só questão ou problema (e isso é o mais comum, inclusive), demanda um certo tempo e esforço para se fazer este trabalho analítico.

Agora gostaria de fazer uma referência a Freud: esse autor cresceu na era vitoriana europeia, época cheia de pudores e tabus, e um grande mérito dele foi o de ter primeiro escutado as pessoas para só então falar algo. Sua teoria, que ele foi reformulando ao longo dos anos, era baseada nas suas experiências clínicas, as quais partiam sempre em primeiro lugar da fala dos analisandos. A teoria vinha depois, a posteriori e caso ele esbarrasse num problema, a teoria é que devia ser revista, pois seus professores (em especial Charcot) já diziam que não é porque não se entende algo ou que não faz sentido com a teoria atual que o fenômeno deixaria de existir. Desta forma é que Freud entra em contato com a sexualidade humana e toda a sua variação: heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade, fetiches os mais diversos, sexualidade infantil, aversão a sexualidade, impotência sexual, frigidez, etc. Sua postura ética e seu compromisso com seu próprio método de trabalho o levavam a primeiro escutar e só depois pensar e falar sobre algo com o analisando.

Hoje, infelizmente, se observa em muitas correntes teóricas dos campos psis que o saber está estabelecido de antemão, antes de sequer a pessoa abrir a boca. E quando a pessoa fala, alguns profissionais ouvem apenas para poder encaixá-la numa das categorias de fenômenos preconcebidos e então despejar sua sapiência sobre o pacientem ensinando-os a “como fazer” ou “como evitar” seja lá o que for.

Não é esta a ética da psicanálise. Há sim um corpo teórico respaldando a escuta e as intervenções do psicanalista, mas a escuta da fala do analisando sempre vem em primeiro lugar. A psicanálise é um método de investigação, e sempre que não se respeita isto o profissional apenas está ouvindo mais do mesmo do que ele mesmo acha e reproduzindo na clínica o que ele já conhece, seus jargões ou noções pré-concebidas.

É Lacan quem vai retomar isto após a morte de Freud e reafirmar a associação livre como o ponto a partir do qual uma análise começa e com a qual se trabalha.

Desta forma, seja qual for a questão, inclusive sobre sexualidade, o convite que se faz quando se recebe alguém num consultório é um convite para que a pessoa sinta-se livre para falar abertamente, mesmo daquilo que lhe dá medo, que a angustia, que dá vergonha, raiva ou nojo. E a sexualidade humana muito comumente evoca estes e tantos outros pontos.