E como funciona esse negócio de psicanálise aí?

A única regra de uma psicanálise é: falar livremente, sem censura, tudo que vier a mente durante a sessão, fazendo ou não fazendo sentido com o que foi dito antes, com ou sem ligação. Não há certo ou errado, melhor nem pior. Parece fácil, mas pelo que vejo em minha experiência no consultório, demanda um tempo até o analisando de fato conseguir associar livremente.

E por que isso, falar livremente, é tão importante?

Porque é “o falar” o material de trabalho: através da fala é que a pessoa expõe o conteúdo do que a afeta, mas principalmente é através da fala que pode ser observada a forma como a pessoa se posiciona em seu próprio discurso e como posiciona o outro. Tudo isso compõe um processo investigativo (e de construção), em que o analista tem um papel importante e o analisando, engajado na própria análise, também, embora seus papéis sejam bem diferentes.  Se pareceu um tanto abstrato é porque colocar vocabulário técnico aqui em nada ajudaria a um leigo e tampouco dar exemplos clínicos ajudaria.

Isto tudo me leva a fazer a seguinte afirmação: uma análise não é um desdobrar-se sobre um conteúdo e aprender uma lição. Senão, bastariam livros e aulas para que as pessoas pudessem livrar-se daquilo que lhes aflige, e isso a experiência mostra que absolutamente não acontece. No máximo uma leitura ou um contato com algo da cultura pode ajudar alguém já em análise, durante sua análise, mas como algo complementar. O que a psicanálise propõe é uma experiência que a pessoa viverá com seu analista e será através dessa experiência que poderão ocorrer eventos e elaborações com efeitos analíticos (ou, porque não dizê-lo, efeitos terapêuticos).

Justamente para o analista não cair numa conversa convencional é tão importante que tenha uma formação sólida em seus estudos e formação como psicanalista.

É algo que se vive na análise, com o tempo que demandar, na construção de uma narrativa, com intervenções e pontuações do analista neste processo, que a análise pode acontecer.

Pela minha experiência, é comum encontrar no consultório quem diga: “Meu outro terapeuta falava da vida dele. Porque você não fala da sua vida pra mim?”. Ora, simples: se o material de uma análise é a fala e se o sentir-se livre para falar é algo imprescindível ao processo, saber da vida e das opiniões do analista seria restringir essa liberdade. Por exemplo: como falar que se adora a cor azul e das aventuras que se meteu para viver o azul se o analista disse, três sessões atrás, que detesta azul? De certo se evitará falar até a palavra azul ou, no mínimo, criará desconforto ao tocar no assunto, atrapalhando enormemente o livre-falar. Aqui me posiciono no sentido de buscar a maior liberdade possível ao que possa surgir no analisando para benefício dele próprio.

Inclusive falar sobre as dúvidas que surgem sobre o próprio analista pode ser um bom material de análise, não para o analista falar de si, mas para buscar o que levou a surgir tais dúvidas no analisando! Afinal, numa análise pode-se falar sobre qualquer coisa. O que será feito desta dúvida ou de qualquer outra fala do analisando é que é o importante!