A divulgação da mídia ajuda ou atrapalha?

Sempre que um problema psíquico “entra em moda” surgem textos e reportagens em jornais, revistas e televisão disparando informações muitas vezes provenientes de fontes pouco confiáveis, ou pior: fontes boas, mas distorcidas e empobrecidas por mídias mais interessadas em vender do que em informar.

Com isso, há uma difusão de termos e conceitos científicos, os quais têm definição e delimitações claras dentro dos campos de saberes psis, mas que acabam se tornando esvaziados de seu sentido original, sendo mal empregados, tornando-se muitas vezes verdadeiros termos genéricos, imprecisos e indefinidos, assim como a “virose” dos médicos.

Um exemplo a ser citado é o caso do famoso bullying*, que devido a uma utilização equivocada que toma por bullying qualquer manifestação pequena ou grande de agressividade por parte de alguém, ignorando o contexto e os demais elementos, acabou resultando em um efeito terrível: o fenômeno estudado pela psicologia e que deve realmente ter atenção e ser tratado acaba sendo soterrado, pois outros fenômenos levam o mesmo nome, esvaziando o termo bullying, que perde sua eficácia como termo conceitual específico para identificar um problema também específico. Desta forma, quando o fenômeno de fato acontece, o público leigo não sabe identifica-lo ou já não lhe dá importância (já que acha que tudo é bullying). Com isso, aqueles que realmente sofrem com bullying acabam não recebendo a atenção e o tratamento devidos, o que não é bom.

O mesmo é possível dizer sobre outras doenças psis como a depressão, o transtorno bipolar, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, e tantas outras doenças ou questões psis que já foram “a bola da vez” da mídia. E este cenário torna propício o auto-diagnóstico errôneo, o qual acaba muitas vezes em auto-medicação. É necessário, portanto, tomar cuidado com o que se lê em veículos de comunicação não-científicos. Continua sendo a melhor saída para lidar com questões sérias buscar informações em literatura científica e com profissionais compromissados com seu campo de saber.

*Bullying: resumidamente é uma situação que envolve três elementos: 1 – um alvo; 2 – um ou mais agressores; 3 – uma plateia. As agressões ao alvo são públicas para a plateia. Consiste em atormentar o alvo (começando de modo tênue e ficando progressivamente mais cruel), sendo que quando alguém de fora da plateia percebe algo, agressores e plateia são unânimes em afirmar que a culpa é do alvo, criando assim uma situação em que quem está de fora acha pouco provável que o alvo esteja sofrendo estas agressões, pois é uma só pessoa diante de um grande contingente de outras. A plateia sustenta a situação, seja rindo, seja se omitindo diante das agressões, sendo fundamental para que o fenômeno seja caracterizado como bullying. As situações podem ser tão graves a ponto de se tornarem não-críveis por quem está de fora, daí a imensa solidão do alvo. O tratamento deve se dar com todos os elementos (alvo, agressores e plateia), pois todos estão com problemas (e esta é uma questão complexa que não aprofundarei aqui). Pode ocorrer em qualquer lugar com muitas pessoas: escola, trabalho, comunidade, etc.