A depressão de um ponto de vista psicanalítico

Antes de iniciar este texto, gostaria de fazer uma ressalva: autodiagnostico não é uma boa ideia*. O intuito deste texto, mais do que dar nomes ou etiquetas, é lançar questões que possam ajudar o leitor a pensar sobre o tema ou, no mínimo, a questionar situações.

Definir o que é depressão do ponto de vista psicanalítico não é simples, pois não se trata de um fenômeno que é uma coleção de sinais e sintomas. É um mal estar, muitas vezes difuso, que a pessoa não sabe dizer o que é, mas que percebe que a deixa sem motivação, energia ou vontade de fazer as coisas, podendo ou não ser acompanhado de uma paralisia das atividades cotidianas. Ou seja, também é possível sentir esse mal estar e continuar realizando tudo o que normalmente se faz na vida diária, mas sem ver brilho ou cor no mundo e nas atividades.

Muitas vezes, esse mal estar difuso aparece em sensações corporais ou em pensamentos espontâneos, pensamentos estes que em muitos casos são autorecriminações, autodepreciativos ou algo do tipo. Ou seja, algo está voltado contra a própria pessoa, mas que ela mesma desconhece, indicando algo que acontece alhures, onde ela não tem acesso dentro de si, mas que mesmo assim sente seus efeitos.

Neste ponto, é importante lembrar que os fenômenos mentais não surgem por geração espontânea: algo acontece que resultam neles. Isto posto, é interessante pensar em como as pessoas que convivem com alguém que diz sentir-se mal desta forma às vezes lidam com o assunto, dizendo que a pessoa deve tentar pensar positivo, que deve se esforçar para melhorar ou que basta querer ficar bem. Qual o erro dessas pessoas que dão estes “conselhos”?

Vale retomar um autor clássico para ajudar a responder isso: Freud em seus escritos sobre melancolia** levava em consideração o Inconsciente. E o inconsciente é aquilo que não temos acesso, mas que faz parte de nós, exercendo, portanto, efeitos mas sem que se tenha acesso direto a ele. Efeitos às vezes imperceptíveis, às vezes esquisitos (como sonhos), ou que podem nos causar alguns problemas (atos falhos e sintomas).

Ora, se uma pessoa se queixa de um mal estar difuso, que não consegue identificar de onde vem ou o que significa, a chance maior é de que não tenha acesso ao que a afeta, já que inconsciente, ficando a mercê dos efeitos do que está lá, pouco podendo fazer sozinha para lidar com o que acontece. Quando se diz que algo é inconsciente, necessariamente se está dizendo que aquilo é algo que a pessoa não tem como ter acesso direto e tampouco sozinha.

E é aqui que entra o método proposto por Freud, a psicanálise: ao falar livremente, associando ideias, contando sonhos, falando sobre sintomas, vida atual, vida na infância, projetos para o futuro, enfim, sobre o que lhe vier a mente na análise, a pessoa fala de si como um todo, ou seja, na fala se expressa o consciente e também o inconsciente. O analista, com sua escuta, pode, então, trazer à baila pontos antes encobertos, desconhecidos. É a partir daí, numa investigação, com questões levantadas na análise, que é possível ter algum acesso ao que antes estava inconsciente e construir outras respostas para o que está lá.

Desta forma, são as perguntas, as interrogações e principalmente a vontade de saber que são os meios de um processo de análise!

Uma indicação de livro sobre depressão: O Tempo e o Cão, de Maria Rita Kehl.

*Para mais informações sobre a ressalva inicial, clique aqui.

**Era assim que ele denominava o que hoje seriam as depressões. Contudo, há uma distinção entre depressão e melancolia que é feita depois dele, mas não abordarei a melancolia aqui.